EXORCISMO CIGANO
Parte II
(Caso não tenha lido a parte I desse artigo, acesse aqui!)

por Asséde Paiva
postado no Benficanet em 18/05/2018

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TRAIÇÃO

Era um lugar não muito além da fazenda da Legalidade, ermo, lúgubre e fantástico, que afugentava os que ali passavam. Sem exceção, apressavam os passos, se benziam e só se sentiam seguros bem longe. Situava-se numa das vertentes do morro da Fumaça, que era também assustador, sempre coberto pela neblina. A região era muito montanhosa. Numa visão aérea, notavam-se em sequência três elevações: o morro Alto, o da Picada e o da Fumaça. Um vôo mais audacioso delineava a serra da Saudade. Dando asas à imaginação, os morros formavam as três corcovas de um animal mitológico cujo rabo, imenso, tinha na ponta a fazenda citada. O pescoço, tão grande quanto a cauda, podia ser dividido em três partes: a primeira descia pelo morro da Fumaça; a segunda repousava num altiplano correspondendo à bacia do rio Verde que, por sua vez, era formado por dois outros; o Pardo e o Preto. A terceira fração do pescoço ascendia pelos flancos da serra da Saudade onde, no topo, estava a cabeça do monstro. Granítica, imensa, com o olho ciclópico, ocupava o cume da montanha. Entre os dentes erodidos, gastos pelo tempo, um afoito poderia se aventurar, pela boca descomunal, e encontrar pequena passagem numa cárie disfarçada pelas sarças e espinheiros. Ultrapassada esta barreira, iniciava-se uma caminhada em declive pelas pedras lisas, lodosas e escorregadias, por um canal ligeiramente iluminado que bem poderia ser a garganta do basilisco, lendário.

Prosseguindo a viagem para o interior, o explorador chegaria a um anfiteatro semi-esférico de grande altura. Da abóbada escorriam, por tempos imemoriais, gotículas de água cristalina. Por milhões de anos formaram não só belíssimas estalactites, como também respingavam nas rochas do piso tornando-o abaulado. Isto só foi possível porque das entranhas da montanha afloravam olhos d’água diluindo ou amaciando a rocha, transformando-a numa banheira natural, na qual se podia mergulhar para um banho reparador. O líquido, que escoava pela borda mais desgastada, desaparecia nas pequenas fendas. Reaparecia do outro lado do penhasco, enriquecido de novas fontes, e se despencava em belíssimo véu de noiva.

Corria a lenda de que a mina era milagrosa, a água era santa. Há tempos ali vivera e morrera um eremita. Deus, para recompensá-lo pela vida ascética e intenso fervor religioso, tornara a nascente miraculosa. O anacoreta, na verdade, fora um ser especial, um iluminado. Falava com os “espíritos”. Doutrinava as pessoas más e perversas; ouvia com humildade os ensinamentos dos bons. O bom velho curava os doentes pela imposição das mãos e orações. Alimentava-se de frutos silvestres. Jamais o viram dormindo e, além disso, tinha excelente relacionamento com os animais selvagens, os quais protegia dos caçadores.

Difícil, quase impossível era chegar àquela fonte. Não havia estrada. O peregrino teria que percorrer uma trilha tão estreita que mal dava para pôr o pé. Armadilhas de todos os tipos dificultavam a caminhada: buracos sem fundo, um deles tinha o significativo nome de Boca do Inferno; ladeiras íngremes, despenhadeiros repentinos, camuflados pela vegetação, e principalmente jararacas venenosas presentes em todos os lugares: atrás das pedras, dos paus podres, às vezes, simplesmente enroladas, esquentando-se ao sol da manhã.

Com a morte do ermitão, tão misteriosa como fora a vida, (correu por muito tempo o boato de que fora assassinado por um caçador, irritado com a proteção que dava aos bichos) os romeiros foram rareando até que cessaram. A picada sinuosa desapareceu; a mata retomou o que era dela.

Retornando ao réptil mítico, isto é às montanhas, ao longo do corpo e nas extremidades das oito pernas espraiavam os sítios, povoados e fazendas, entre elas as da Cachoeira, Santana, São Mateus, Grão-Mogol, França, Taquaral, Arrependidos, Monte Verde e outras. A mais velha, bela e maior era a fazenda Jurema; e o dono, Chico Nico, o mais temido.

Apesar da distância entre as propriedades, ocorriam brigas constantes por divisas, por dê-cá-aquela-palha, cometiam-se assassinatos.

O sítio das Abóboras confrontava com a grande fazenda Jurema, por azar de Jove. Uns poucos metros eram constituídos por uma lagoa rasa o suficiente para separar o gado e outros semoventes de cada um dos donos, mas deu origem a um poço de ódio.

Ocorrera grande período de seca. O charco fora diminuindo, secando, até se transformar numa minúscula aguada. Os animais, à medida que o verão esticava, iam avançando pelo brejo afora, à procura do capim verde que brotava pela umidade remanescente. Acabaram por se misturar e o prejuízo maior ficou com o pequeno sitiante. As reclamações foram se intensificando, avolumando e as relações azedando.

Vizinhos e amigos tentaram, sem sucesso, amenizar o mal-estar. Chico Nico, o mandachuva, poderoso e rico, recusou dialogar e mandou fazer por conta e risco uma cerca ao longo do terreno litigioso e, enquanto durou o estio, cessaram os recados desaforados.

Quando vieram as chuvas, o sitieiro observou que a lagoa recomposta ficara quase totalmente incorporada às terras da Jurema. Pediu a Chico Nico para derrubar a sebe ou colocá-la na posição correta. Não recebeu resposta, nem observou ação no sentido de atendê-lo. Furioso, resolveu fazer a mudança pessoalmente. Quando chegou ao local, notou que, do outro lado, havia alguém armado. Não se acovardou e avançou resoluto em direção ao tapume. Ouviu um tiro de advertência dado pelo vigia. Retrocedeu, pegou a espingarda e atirou, ferindo, levemente, o oponente. Novo estampido e sentiu a bala passar de raspão na testa. Os duelistas recuaram para uma distância prudente, sempre trocando chumbo, até o esgotamento da munição. Só assim abandonaram a luta.

Novamente, amigos comuns tentaram mediar uma reaproximação, sendo repelidos pelos dois lados em conflito, principalmente pelo fazendeirão. Desistiram convencidos de que no fim aquilo redundaria em morte.

As coisas estavam neste pé quando, em um sábado, Jove recebeu a visita surpresa do inimigo que lhe estendeu a mão e o induziu à reconciliação. Afirmou que não valia a pena brigar por um pequeníssimo espelho d’água. Propôs esquecer tudo sem rancor ou mágoa.

Conversa vai, conversa vem, foi tão envolvente, tão persuasivo e astucioso que convenceu o outro de que era sincero. A serpente, no éden, não teria sido mais esperta. Por fim, convidou o ex-desafeto a almoçar um frango com quiabo no dia seguinte. Ainda que ressabiado, Jove não tinha como recusar e, um tanto aborrecido, aceitou.

Na véspera da viagem à Jurema teve uma longa e dolorosa noite. O sono agitado, pesadelos e sobressaltos. Revirou na cama, brigou com o cobertor e com o travesseiro. Gemidos e lamentos... Os galos cantaram urna, duas e mais vezes, anunciando a madrugadinha. Sonhou que caminhava por um túnel, escuro, apavorante, que se fechava, afunilava. Esbarrava em coisas; o negrume o envolvia como um polvo massacrava e asfixiava. Curvou-se, ajoelhou-se, por fim se arrastou. Os pulmões pareciam explodir e o coração aos pulos. Desespero, agonia. Súbito, ao longe, um ponto de luz. Quis prosseguir, não pôde. Estava entalado. Acordou suando frio. Levantou-se, lavou o rosto e enquanto se penteava, tentou espantar a estranha visão. Gostaria de decifrá-la, porém, não tinha o dom da vidência.

Alta madrugada, antes de sair, sua filha acordou e tentou persuadi-lo a ficar quieto em casa, pois tinha também sonhado que ele morreria. E trocaram este diálogo:

“Pai fica, eu estou com medo...”

“Deixa disto, minha filha. É só um passeio”.

“Eu sonhei...”

“Filhinha, tudo está certo, se papai não voltar vocês estarão protegidas. Tenho dinheiro em casa e na viagem que fizemos a Congonhas o Campo, para o jubileu, eu comprei muitas roupas para vocês. Tenho muita mercadoria estocada no paiol, muitas galinhas no terreiro. Vacas no pasto e animais...”

Parecia premonição de um fatídico encontro.

Ele saiu de casa, atravessou o terreiro, o estábulo e foi para o pasto à procura da Dourada, a besta de estimação. Subiu o morro em forma de meia-laranja. Sabia que a encontraria no topo. De fato, lá estava com outros animais. Aproximou-se e passou um cipó-imbé sobre o cangote da mula. Preparou um barbicacho, montou-a em pêlo. Desceram devagar para o cercado. Ele sempre deprimido e pensativo. Amarrou-a no tronco, bateu as sementes de capim-gordura que lhe grudaram nas pernas da calça, buscou, no depósito, a tesoura, a raspadeira e a escova para a limpeza preliminar da besta. Com a primeira, aparou-lhe as crinas; com a segunda, retirou os carrapichos e carrapatos; com a terceira alisou os pêlos. Lento e com muito carinho. Feita a preparação, pegou, no paiol, algumas espigas de milho, descascou-as, quebrou-as em pedaços e alimentou o nobre animal. Vagaroso em todos os atos, como se atormentado por lúgubres devaneios. Profundos vincos sulcavam-lhe a testa. A preocupação daquele pesadelo. O que significava?... pressentimento e medo. Pensou em se armar. Desistiu. Não ficaria bem numa visita de cortesia.

Subiu a escada da estrebaria. Pegou o baixeiro, a manta e o cabresto. Jogou os dois primeiros sobre o dorso da mula, procurando ajeitá-los de modo que ficassem bem divididos ao longo da coluna vertebral. Trocou o cipó pelo cabresto. Retornou à selaria, apanhou o arreio, preso a um gancho fixo na trava do teto, aí demorou um poço alisando o gancho. Trouxe o arreio e jogou-o sobre ela, na altura da garupa, para facilitar a colocação do rabicho. Principiou, em câmara lenta, o ritual do arreamento. Com as mãos, levantou um pouco a sela, ajustando a suadeira sobre a manta. Afivelou o peitoral e a cilha. Passou o látego pela argola da barrigueira; arrochou fortemente. O animal reclamou, levantando a pata esquerda, quase batendo a ponta do casco no abdômen. Ele entendeu o recado. Afrouxou um pouco a cincha e acariciou-lhe a tábua do pescoço, pedindo desculpas. Pegou a cabeçada, colocou-lhe o bocal, procurando não machucar a língua e os dentes; verificou e acertou a barbela na camba; passou-lhe as rédeas pela cabeça e ao longo do pescoço, prendendo-as no santo-antônio (cabeça do arreio). Afastou-se, deu uma olhada crítica na montaria. Achou os estribos muito curtos, mediu-os pela distância entre o pulso e a axila. Aumentou dois furos nos loros.

Nada mais havia a fazer. Dourada, corretamente ajaezada podia viajar. Deu um suspiro. Não teve pressa, estava dopado, sonâmbulo. Reexaminou tudo: ferraduras, cravos e cascos. Trançou-lhe um nó no rabo para melhor aparência. Inconscientemente, retardou o máximo.

Apanhou o relho, dependurado num prego; viu o pelego, entretanto optou pelo coxinilho, tinto de preto, para melhor contraste com a cor do arreio. Agora sim, estava pronto. Novamente, o coração confrangeu. Algo inexprimível o retinha. Desfez a laçada do cabresto, caminhou em direção a casa.

Veio de cabeça baixa onde a mulher já o esperava com uma xícara de café bem quente. Tomou-o em silêncio e devagar. Nunca demorou tanto para beber um simples cafezinho. Deu-lhe adeus, cutucou as ilhargas dá besta com os calcanhares e partiu sem palavras, pois tinha um nó na garganta. Algo estava errado, muito errado.

Estrelas ainda luziam no céu.

Dourada, ignorando o drama do dono, marchava faceira, abanando o rabo de encontro às ancas: direita, esquerda... Passou pela covanca, chegou à raiz da serra. A lua fora mandada embora para as sombras. O sol derramava luz e calor nos rios, planícies, montes e grotões. Somente ele sentia arrepios até na alma...

Extraordinariamente quente seria aquele dia.

Conduzia a mula a passo e assim subiu o morro da Fumaça. No cume eles estavam empapados de suor. O sol, que brilhava como um disco de fogo desapareceu atrás de nuvens negras. Alguns trovões prediziam o temporal. Após ligeiro trecho plano, começou a descida, quando sentiu os primeiros pingos da chuva na testa. Secou-a com o dorso da mão e estugou a besta, cutucando-a levemente nos flancos. Não usava esporas. Longe viu a cortina de chuva que unia o céu e a terra e que vinha em sua direção.

A estrada, sinuosa, flanqueava o morro; formava, em longa curva descendente, uma ferradura, fendida e retorcida por um ferrabrás; parte do rompão ficava no topo e a outra a cem metros abaixo. Ainda estava no início e já avistava o final do caminho, lá embaixo. Naquele ponto, na dobra escondida pela elevação, estava a porteira e bem perto dela um barraco abandonado.

A obra rústica fora executada por mateiros quando pretendiam derrubar uma pequena mata. Por discordarem quanto ao preço da empreitada, desistiram. O casebre ficara, porque esqueceram de demoli-lo.

Dentro da velha palhoça, Pedro Sertanejo, o cafuzo, o esperava em tocaia. Pela réstia da janela, viu a vítima que se aproximava a galope. Empunhou o trabuco, engatilhou-o, entreabriu a porta e aguardou impassível. Com a mão direita pegou um pedaço de fumo de rolo no bolso, levou-o à boca, tirou uma lasca e pôs-se a mascá-lo para se liberar da ansiedade. Não queria errar, não podia.

O cavaleiro descia rápido. Pretendia se esconder da chuva no rancho. Na porteira saltou, desamarrou o cabresto da cabeça do arreio e se dirigiu ao rancho. O aguaceiro desabou. Estendeu a mão para abrir a porta.

À queima-roupa o capanga puxou o gatilho. O projétil atravessou o peito do infeliz acima do coração. Ele se voltou sobre os calcanhares, tentou montar, chegou a pôr o pé no estribo e se segurou na borraina, porém, a mula assustada pelo estampido, negaceou. Indefeso, pelas costas, recebeu mais dois balaços na cabeça; caiu fulminado. Antes de mergulhar na inconsciência da morte, descobriu quão ingênuo fora em acreditar na boa-fé de Chico Nico.

O enigma do sonho fora desvendado.

Feito o serviço, o sicário saiu; olhou sem qualquer remorso para o corpo inanimado, cujo sangue se misturava com a chuva numa poça avermelhada pelo chão; deu uma cusparada e partiu para relatar o feito ao chefe.

É notável que naquele instante de muita chuva e de céu escuro, nuvens se abriram e exatamente sobre o corpo moribundo, brilhou um raio de luz. Viria buscar uma alma?

Desde então aquele lugar foi denominado Capão da Traição e considerado maldito. Os que lá passavam altas horas da noite acreditavam ver o vulto de um homem ensanguentado tentando, desesperadamente, montar.

A viúva, em memória, mandara fincar um cruzeiro no local. Chico Nico era mesmo impossível. Cismou que o madeiro estava no seu terreno e que era uma provocação, empilhou lenha em volta e botou fogo. Algo inexplicável aconteceu: tudo queimou, exceto a cruz. Os crentes encararam o fato como um aviso, o castigo.

Este fim trágico influenciou negativamente Antônio, porque era afilhado de Jove e era muito dependente dele. Quando soube do evento, passou três dias sem comer e dormir, só chorava. Voltou a se alimentar sob ameaça dos pais de apanhar uma surra.

Antônio, além dos fantasmas de doenças incuráveis ficou encucado com a morte violenta do tio-padrinho e começou a tomar tiros em sonhos.

A VIAGEM

Singular fato aconteceu quando Toninho completou doze anos. Ele mudaria completamente sua vida. Na data do aniversário chegou um mensageiro da fazenda Jurema e entregou uma carta ao senhor Lisandro. Nela, o remetente pedia que se contatasse o sacerdote, residente não muito distante deles, num povoado denominado Rosário.

O ministro de Deus, em questão, era padrinho de um outro irmão de Antônio. O cura chamava-se Afonso. Bom vivant e valentão, nele habitavam outros vícios que não o recomendavam como guia das almas. Acreditava mais num revólver do que no poder das orações. Ciente do pedido aceitou-o, pois não queria incorrer na ira do requisitante.

O pai de Toninho aproveitou para mandá-lo estudar, com professor particular, na fazenda Jurema, como usual naqueles tempos. Solicitou e conseguiu que o compadre levasse Antônio com ele. Eles tinham, inclusive, laços de parentesco.

No dia seguinte, encilharam um sendeiro pachorrento, manso e partiram. O garoto ia à garupa.

A viagem teria transcorrido monótona se não fossem três incidentes dignos de nota: o primeiro se deu com o menino que, cansado pela longa caminhada, cochilou e escorregou do cavalo. Só não caiu por ter sido socorrido a tempo pelo clérigo que, pressentindo, levou a mão rapidamente para trás e o segurou.

Sentindo-se fatigado, tanto quanto o garoto, resolveu pedir pousada na fazenda do avô (o papai Neneca, assim chamado), pelo lado materno, do menino: um fazendeiro que vivia do passado. Ficara pobre pelo excesso de bondade. Não sabia dizer não e fora muito explorado por isso. A estância era parada obrigatória de tropeiros, viajantes, mascates e boiadeiros, em trânsito de uma cidade para outra. Lá pernoitavam, comiam e partiam sem nada pagar. No tempo das águas, quando as estradas se tornavam intransitáveis, ficavam semanas vivendo à custa do “papai”, Neca. Utilizavam suas coisas, pertences, animais, comiam, dormiam e sumiam. Ele foi vendendo partes das terras e do gado, para saldar dívidas. Ficou sem dinheiro, sem amigos e, felizmente, sem os parasitas.

Certa feita estavam roubando porcos do bom homem. Numa noite, ouviram-se latidos dos cães e gritos dos suínos. Um dos filhos do senhor Manoel, metido a valente, apanhou o mosquetão na parede e foi para a varanda. O velho correu para a janela e gritou: “Foge, ladrão, senão Nenego te mata”. Por aí se vê quão bondoso era o fazendeiro.

Foram recebidos pelo avô, que os levou direto à cozinha onde a avó Teresa mexia um delicioso angu para comerem com leite, como costume na roça.

Todos se arranjaram em torno de umas brasas postas no centro, sobre o piso de chão batido da cozinha e, enquanto comiam, contavam estórias, cantavam lérias, relembravam episódios e combinavam tarefas para o dia seguinte.

Toninho tinha um tio na faixa dos vinte e sete anos. Eles se identificaram neste papo informal e, quando foram dormir, combinaram ficar na mesma cama. De madrugada, o garoto acordou com uma sensação esquisita. Abriu os olhos e viu que o tio estava grudado nele e que algo ia e vinha entre as pernas. Perguntou assustado:

— O que está fazendo, tio?

Apanhado de surpresa, ele se afastou e respondeu, simulando irritação, que o garoto estivera sonhando. Mentira, o descarado estava abusando sexualmente do sobrinho.

Indeciso sobre que atitude tomar, Toninho resolveu não reclamar e dormiu novamente. O insólito ato jamais foi esquecido e ele desenvolveu um intenso e definitivo desprezo pelo parente.

No dia seguinte, seguiram a jornada logo após o café-com-leite da manhã, acompanhado de broa, biscoito de polvilho, queijo, cobu (broa de fubá) e outros quitutes.

Toninho recebeu do tio um presente, em dinheiro, que assim esperava comprar o silêncio e a conivência do rapaz. Vã tentativa, a ojeriza era definitiva.

Avô Neca, antes da partida, deu um aviso ao pároco sobre os grandes obstáculos que o esperavam na fazenda Jurema. Lá, seguramente, belzebu dominava. Expulsá-lo não seria fácil.

O terceiro fato notável ocorreu próximo do término da viagem, na descida do morro da Fumaça, onde havia a cava e nela a cancela difícil de abrir, porque era contra a direção que iam. O prelado se curvou sobre a montaria para alcançar o cabeçote. A seguir, puxou as rédeas de modo a provocar o recuo do animal. Um pássaro, provavelmente um mocho, alçou vôo, do braço horizontal da cruz que ficava acima do caminho. A ave passou rasante sobre o cavalo que, assustado com o pio estridente e o rufiar das asas, upou. Afonso, estabanado, puxou violentamente o bridão, fazendo o rocim tresandar. Ele escorregou e empinou. Foram os três para o chão. O garoto caiu para trás, mas sem se machucar; o padre teve pior sorte, pois ficou com a perna presa entre o chão e o arnês. Infelizmente, sofreu uma luxação no tornozelo, forçando-o a um grito doloroso.

O pangaré e o cavaleiro se levantaram. O garoto rápido segurou os freios. O de sotaina, claudicando, com fortes dores, montou e encostou o animal num barranco para facilitar o menino subir. Por precaução, seguiram bem devagar.

— Padrinho! Me conta a estória daquela cruz...

CHICO NICO

Voltava para a fazenda Jurema montado no alazão castanho. Estava pensativo, deixando o animal regular o passo. Taciturno, desprezava a si próprio, reavaliava seus atos. Tinha sido um grande patife, merecia o que estava passando. Não lembrava uma ação boa, nada de que pudesse se orgulhar. Alheio ao derredor, não via as belezas da paisagem, os pássaros retornando aos ninhos, o sol se escondendo no horizonte, as nuvens refletindo as luzes douradas. O entardecer era lindo. Uma pomba-trocal piou no bosque, as saracuras gritavam à beira da lagoa. Algumas aves noturnas, assustadas, davam vôos sobre a cabeça do cavaleiro. Ao passar na orla da floresta, centenas de urubus revoaram da copa de um frondoso ingazeiro. O bater das asas deu um tom triste àquela caminhada. O ambiente mudou de uma hora para outra: o ar ficou denso, quase palpável, os crocitares, pios, grasnados, chirriados e os vôos cessaram. Tudo que indicava presença de vida silenciou.

Cobras... Não sabia por que, começou a pensar nelas, abundavam naquela região: corais, urutus, surucucus, jararacas e outras. Tinha, também, muçurana, que comia as venenosas. Víboras eram encontradas em todos os lugares: debaixo da cama, sob os travesseiros, na bica do moinho, no alpendre, no paiol em lugares inimagináveis. De repente uma cascavel bateu com o chocalho à beira da estrada, o animal assustou, empinou e depois murchou as orelhas, repuxou as narinas, corcoveou e empinou. O cavaleiro soltou a praga predileta: Com seiscentos mil diabos! Arrependeu-se, não queria falar mais palavrão.

Alguns minutos mais, a tarde cederia à noite, o sol daria lugar à lua-cheia. Chico Nico pareceu acordar dos sombrios pressentimentos. Descia o morro da Fumaça, os olhos fixaram no tronco decepado de uma antiga figueira. Diziam que o demônio gostava daquela árvore, que tinha o talo queimado, preto, muito feio, com dois ramos mais grossos abertos em forma de V, apontando para o Céu, como se clamasse por vingança contra o fogo que devorou seus galhos e folhas. Um raio caíra nela há alguns anos.

Aquele cascavel era diferente, algo assombroso aconteceu: a víbora deslocou-se para trás da gameleira e um moleque, pretinho, pernas finas, pés largos, surgiu por detrás, segurou o ginete pelo focinho e disparou com ele. Chico Nico caiu em estupor, perdeu o poder sobre a alimária que só obedecia ao negrinho. Saíram da estrada e desceram em desembestado galope. O animal tropeçava, levantava, planava e deslizava sobre as touceiras de capim. Para trás ficavam os rastos daquela corrida desatinada. Nada interrompia a cavalgada satânica: galhos esgarçados, pequenos arbustos arrancados com raízes, espinheiros curvados e retorcidos. Sobre as pedras, as ferraduras tiravam fagulhas, como se pretos velhos estivessem tentando acender as bingas para tirar um trago nos cachimbos ou cigarros de palha. Ao passar por casebres de colonos ou de agregados, estes punham as cabeças para fora das toscas janelas e as retiravam rapidamente, persignando-se com terror. Seguiram morro abaixo, quase em linha reta para a fazenda, sem respeitar buracos, cercas, vales e matas, como se estivessem voando a alguns palmos do chão. A viagem agônica durou pouco tempo; porém, para o fazendeiro, foi infinitamente longa.

Chegaram ao curral; o cavalo estancou como se estivesse diante de um muro invisível e difícil de transpor. Pelas ventas escorria sangue que se misturava com a espuma da boca e transformava em uma baba sanguinolenta, cujo filete descia ao chão. O corpo do pobre animal estava molhado de suor. Teve um tremor violentíssimo, derreou-se, caiu de prancha com um baque surdo, arrebentado de tanto esforço.

O crioulinho desapareceu misteriosamente, apenas um assobio finíssimo feriu o ouvido de todos, causando arrepios de temor nos que o ouviram. O mal não estava mais ali, por enquanto.

Chico Nico deu acordo de si e se levantou da sela. De fato, estava sentado ridiculamente no cavalo morto. Como um zumbi subiu a escada e entrou cambaleante. Rita, sua filha, estava no quarto. Ele passou direto, mas ela segurou-o peia mão e disse quase sussurrando:

— Papai, hoje ele não veio...

Olhou para a filha estranhamente e seguiu adiante. Na sala estava a mulher.

Dona Almira era alta, magra, cabelos grisalhos, nariz aquilino cheio de cravos. Tinha um olhar cansado, triste e bondoso. Encarou o marido, interrogando-o silenciosamente. Ele falou: — O padre virá.

A mulher não ficou totalmente satisfeita, notara-lhe a mortal palidez, acompanhou-o ao quarto do casal.

— Graças a Deus — disse ela. — Um padre é nossa última esperança, não aguento mais, aqui é um caos. Você ficou uma semana fora, os problemas duplicaram. Como foi a viagem? — E sem esperar resposta: — A menina não está nada bem, não dorme direito e, quando o faz, se levanta como uma sonâmbula e tenta sair de casa, fala com voz diferente e, como sempre, vê coisas. Hoje nada aconteceu, felizmente...

— Eu sei por que: ele estava comigo... —Apagou.

Nos contrafortes da serra da Saudade com as serras da Bocaina e de Ibitipoca, no centro de um triângulo formado pelos povoados de Santa Bárbara, Pirapitinga e Humaitá, sobre um platô, estava a antiga e imponente fazenda Jurema. Para construí-la tiveram que desbastar uma pequena nesga de floresta coberta de palmeiras, onde se viam lindos buritis, carandaís, brejaúbas, indaiás e outras. Quando da inauguração, pensaram em vários nomes, como palmital, cocais, coqueiros. Por fim optaram por Buriti; mais tarde, o atual dono a rebatizara Jurema.

É possível que alguns nomes propiciem focos e concentrações de energias misteriosas. Parece que a palavra Jurema é um dos casos de atração negativa. Trata-se de uma planta usada pelos indígenas como poderoso meio de feitiços, sortes, encantamentos e de invocação das forças da mata. Provoca sonhos e visões terríveis e é indispensável em sessões de catimbó e de pajelança. Chico Nico era chegado a este tipo de trabalho mágico. Apesar da troca de nome, os mais velhos teimavam em chamá-la Buriti.

A fazenda era velha, muito velha; diziam que tinha mais de duzentos anos; um exagero, talvez cento e cinquenta; mais de cem, certamente. Construída totalmente sobre pedra, resistira às intempéries e ao vandalismo do homem. Os pilares, de blocos retangulares de cantaria, com oitenta centímetros de comprimento por trinta centímetros de largura e mesma dimensão na altura, bem nivelados, ajustados, esquadriados, uns sobre os outros, dispensavam qualquer tipo de argamassa para soldá-los. Sobre as colunas pétreas repousavam os barrotes e vigas de aroeira ou de peroba, com quarenta centímetros de largura e altura, e de comprimentos variáveis. Todos travados entre si constituíam um conjunto sólido e durável. Sobre esta base, elevaram-se colunas, algumas de madeira de lei, outras de pedra, aprumadas e travadas. As paredes foram emboçadas com massa de adobe e pintadas de ocre suave, as janelas envidraçadas, corriam em forma de guilhotina; as venezianas abriam-se para dentro. O gradeamento que suportava o telhado colonial era uma obra de arte de bons carpinteiros e marceneiros. A madeira, ajustada e presa com cavilhas do mesmo material, armava uma gaiola que suportava qualquer forro e telhado, sem perigo de desabar. As tesouras, caibros, ripas, terças, cumeeiras, etc. eram de peúna, candeia, canela e canjerona. As janelas, portas, assoalho, móveis em geral, feitos de madeira maciça, compunham um conjunto harmonioso e longevo. As várias dependências enormes. A antiga senzala, de lanço corrido, ocupava grande parte do piso inferior; a cozinha, certamente, dominava um terço da área total do piso superior.

Entrava-se na fazenda pelo porão, quando a cavalo. Lá deixavam o animal para ser cuidado. Subia-se por uma escadaria de pedra até uma espécie de ante-sala, onde se guardavam os chapéus, capas, bengalas, esporas e guarda-chuvas. De lá acessavam a um salão, ou ao varandão.

O alpendre tinha a mesma dimensão de um lado da casa: mais ou menos quarenta metros. Por ele entrava o pessoal que vinha a pé. Na sala dourada, a maior, com 150m2, acontecia as grandes recepções, bailes, saraus e casamentos. Não existia capela. Dez quartos, cinco salas, dois escritórios, sala de banhos, despensa e outras dependências completavam o segundo andar. A frente da enorme fazenda era orientada para o lado sul. Do mesmo lado, ficava o terreiro e o gigantesco curral, calçado de pedras, ligeiramente inclinado. Após eles, vinha a planície. Mais longe, linhas cinzentas indicavam a fumaça de algumas chaminés das casas mais altas de um lugarejo.

No lado leste, uma linda cachoeira despencava num açude profundo, com eterna névoa sobre ele, decorrente da evaporação das águas. Também se podia observar parte da floresta que recobria a serra. Aproveitando a queda d'água, instalaram o moinho para moagem do milho, o engenho de cana e o alambique para a fabricação de cachaça, rapadura e açúcar preto. O paiol, a queijeira, a selaria e o forno ficavam na parte norte. Finalmente, a oeste, cultivavam hortaliças e árvores frutíferas, sendo colhidas verduras e frutas das mais variadas espécies o ano inteiro.

Por todos os lados se chegava à herdade. Algumas estradas eram íngremes, outras mais planas, dependendo da direção escolhida.

Como muitas outras esta fazenda fora construída por escravos, e nela centenas pereceram. Chico Nico, o atual proprietário, a obtivera por herança. Por ser imensamente rico, possuía muitos empregados; mais de cem. Afirmavam que, no tempo da escravidão, tivera mil ou mais. Ainda produzia quase tudo: café, arroz, feijão, farinha, milho, além de muitos outros produtos. Centenas de cabeças de gado, cavalos, ovelhas e aves domésticas propiciavam muita abundância. Diziam que naquela casa só se comprava sal.

Chico Nico era um barão, até adquirira a patente de coronel da Guarda Nacional. Considerava-se o rei daquelas paragens; o senhor da vida e da morte dos familiares e dos empregados. Não admitia contestação dos seus mandamentos, não temia Deus, nem ao Demônio. Invocava constantemente os nomes do excomungado e gostava da expressão: Com seiscentos mil diabos.

O divertimento preferido era o estupro. Nenhuma donzela, filha de colonos ou de vizinhos, escapava de ser "iniciada" por ele. Intitulava-se inaugurador das virgens. Caso fosse enganado por alguma candidata, virava bicho e punia o antecessor com castração ou morte. De vez em quando sumia algum colono, a razão era a fuga para não morrer. Mandava e desmandava. Considerava-se superior ao delegado, escrivão e juiz de paz. A riqueza não era produto só do trabalho, diziam que teria recebido muito dinheiro falso de Portugal, em fundos duplos de garrafas cheias de vinho, importadas. Emprestava dinheiro a juros extorsivos, mediante a hipoteca de terras. Na data do vencimento, executava judicialmente os inadimplentes e tomava os bens imóveis. Useiro e vezeiro na tocaia, fez desaparecer muito vizinho recalcitrante. Dono de mil alqueires de terra e queria mais sim, porque tinha ambição insaciável. Lamentavelmente, era coiteiro: a fazenda, o refúgio de assassinos, ladrões, assaltantes e fugitivos da pior espécie.

Com sessenta anos de idade, parecia ter mais de setenta. Estava velho cm face dos excessos que cometera: mulheres, bebidas e jogo. Neste último, ganhava sempre; um trapaceiro refinado.

Este é o retrato duro e sem retoques, do fazendeiro. Mulher e filhos só diziam “sim, senhor”. O velho não tinha qualquer consideração com os parentes. Conviviam com ele, mas preferiam vê-lo pelas costas. Sentiam-se aliviados quando o viam partir para alguma viagem e pediam a Deus que demorasse bastante.

Autoritário, mandão e egoísta eram os adjetivos menos fortes com que lhe brindavam. Na ocasião de eleições, os candidatos do oficial da Guarda Nacional seriam eleitos. Depois, para qualquer decisão, iriam lhe pedir a bênção. Certa vez o delegado desobedeceu a sua ordem para soltar um preso. Agiu rápido, removeu a autoridade, soltou o prisioneiro e demoliu a cadeia.

As estórias das arbitrariedades de Chico Nico eram sem fim. Ele bem que queria ser endeusado, na verdade, merecia a visita do tinhoso. Aliás, diziam que tinha um famaliá preso na garrafa; um cramulhão.

Há muitos anos plantava egoísmo, ódio, maldade, assassinatos, trapaças, misérias e dores; agora estava colhendo a tempestade.

 

Aguarde em breve, continuação...

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