Contos Contados - 19/11/2019

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OS BENGALINHAS
Asséde Paiva

Imagem ilustrativa (Pilgrim's Progress - "Bunyan's Work" - 1860)

De manhã, ainda havia muita névoa pelo chão, quando Juca (apodo J) se levantou, lavou o rosto emagrecido e viu que a barba crescera em redemoinho no rosto crestado. Alisou o queixo e pensou: “Preciso fazer esta barba embranquecida e muito feia”. Notou isto com certa tristeza, pois ainda se considerava jovem, mas não o era tanto quanto pensava. Ele era magro, e a pele seca estava enrugando, talvez fosse por ter vida duríssima no campo, sob o sol e chuva. Tomou café amargo, pois há muito não tinha dinheiro para comprar açúcar e detestava café com garapa. Pegou alguns biscoitos para roê-los no caminho. Não iria trabalhar hoje, mas papear. Estava tão debilitado que precisou se apoiar pesadamente na bengala encastoada de prata. Trancou a porta com trinco externo e caminhou curvado, trilha afora até à estrada vicinal, a quinhentos metros de sua casinhola. Se alguém o observasse atentamente veria um ligeiro tremor a lhe sacudir o corpo. Devagar, “caidaço”, quase se arrastando, chegou à beira do córrego, que era na divisa do seu terreno com o do compadre Zeca (Zé).

O “corguinho” sumia num matagal, em preciosa curva, lavando uma prainha de areias branquinhas. Em tempo de chuva, não existia praia.

Do lado de lá do riacho, seu companheiro Zequinha ou Zé, para os íntimos, levantou a cabeça para vê-lo melhor.

Zé estava sentado num toco apodrecido, na cabeceira da ponte tosca.

Juca ou “J” atravessou a ponte retorcendo o corpo magérrimo, onde pespontavam algumas costelas e, por detrás as pás a espinha ondulante. Seu peito enfisematoso se projetava.

– Bom dia, compadre Zé! Como tem passado?

E foi se sentando na touceira de capim-mumbeca, ao lado do amigo.

Zé – Bom dia, compadre Juca! Já cheguei há tempos, não dormi bem esta noite, pensando, revirando, pensando... Aí, vim ainda madrugada.

O compadre Zequinha estava sentado num cupinzeiro amuado por formicida.

Zé tremia como vara verde. Na tábua da beirada parecia estar. Também portava uma bengala, de pau-marfim. Era um pouco mais velho do que compadre Juca.

“J” – Compadre, como vai de tremura?

Zé – Esta sezão vai me matar, estou me sentindo mais fraco dia a dia... Mas tá dando febre até nos “pau”. Lhe digo que invadiram meu galinheiro esta noite.

“J” – Como assim? Que bicho que foi? Matou muitas “penosas”?

Zé – Não, roubou seis e sei que foi raposa de dois pés.

“J” – Espere aí compadre, não gostei deste seu modo de dizer, é indireta? “Ocê” tá me acusando, me insultando? Pra quem sabe lê um pingo é letra...

Zé – Deus me livre, compadre! Cê é “homem de bem”, não é? Ai, ai! Estou tonto, morrendo!

“J” – Não já, eu preciso lhe falar... Contar um segredo que me traz pesadelos.

Zé – Diga homem, diga! Que sou todo ouvido.

“J” – É que há tempos... Parou como se indeciso continuar.

Zé – Fale compadre, o que quiser; se for da minha pertença, vou relevar e achar uma solução.

O compadre Juca vacilou e resolveu mudar a direção da conversa, por ora:

“J” – A seca este ano está braba... Eu vi um bando de maritacas voando para melhores paragens, à procura de lugares amenos, salubres. Não ouvi à noite o cricri dos grilos. A serração está baixa. “Serração embaixo, sol que racha”. É a seca compadre. Nosso sertão vai pegar fogo.

Zé – Sim, a poeira nos envolve e até cobriu os móveis de Ritinha, minha mulher... Ocê sabe, ela tinha tanto ciúme deles, principalmente da cama coberta com lençol de linho, branco, que agora passou a amarelo.

“J” – Sei, sei, eu até lhe visitei algumas vezes e tudo era tão limpinho, se mal lhe pergunto, que é feito de comadre Ritinha? Bateu o trinta e um?

Zé – Sumiu compadre, sumiu na cortina da poeira. Um dia eu mal me levantei dei pela falta dela. Ah, minha mulher com seus encantos... Suas formas, ah, Ritinha...

“J” – Eu até andava “ispiculando” sobre a terra “espaiada” na entrada da matinha. A cruz no batente da porta... Fiz mau juízo “docê”, palavra de honra.

Zé – !!!! Cuidado, a “palavra” têm força.

“J” – Também “oceis” andavam às turras, compadre... Já que falamos nisso, preciso adiantar minha confissão...

Zé – Sei que “ocê” tinha uma queda por ela, não é? Aquelas ancas, o traseiro, a bunda...

Demonstrou enorme agitação ao falar, e firmou a mão na bengala, que estava pousada no pé do amigo.

“J” – O que tenho a dizer é vergonhoso para mim. Uma vez, “cê” estava doente com quérquera, e fui lhe visitar. Lembra?

Zé – Sim, sim, eu me lembro muito bem...

“J” – “Ocê” variava com a febre Terçã.

Zé – Mas não perdi o tino, compadre.

“J” – Não perdeu?!

Zé – Não! Vi tudo, tudinho... “Cê” não dá ponto sem nó. Ritinha estava uma brasa, olhando de viés... Convidativa.

“J” – É mesmo?!

Zé – Daí aconteceu entre “oceis” o que devia de acontecer...

“J” – Ela se engraçou comigo, parece que “ocê” não “usava” ela, não dava assistência... “sacumé”... A carne é fraca.

Zé – O que se deu na cozinha da minha casa foi uma afronta, um agravo à minha pessoa.

“J” – Então sabia?

Zé – Sou doente, mas não sou burro! O bom cabrito não berra.

“J” – Compadre, a sua bengala está machucando meu pé.

Zé – Desculpe, mas a sua está cutucando minha costela.

“J” – Então, tome mais esta, mais esta e esta.

Zé – Vou lhe quebrar o quengo, seu patife e vingar minha desonra! Pá, pá, pá, pá, na cabeça de Juca.

E Juca devolve: pam, pam, toc, toc, toc..., nas costelas e outras partes nobres do Zé.

Os brigões, zonzos, enfraquecidos, sangrando caíram no córrego e continuaram na medida de suas forças: pá, pam, toc, pá, pam, toc... pam... toc. Se esbordoando.

E o sangue turbava a água límpida.

Desapareceram nas canavieiras, na curva do riacho.

Tempos depois, as bengalas foram encontradas no matagal. Os “bengalinhas” jamais foram vistos.

Há quem afirme que “Não-sei-que-diga” os levou para as areias gordas.

Povo linguarudo...

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