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Matéria Especial
O CIDADÃO HONORÁRIO
Vou aonde eu deveria ter ido antes e diversas vezes: vou à minha terra natal...
   18/01/2013

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     Marceneiro, 14 anos, órfão de pai e mãe, Samuel despede-se de seus colegas de escola e de seus vizinhos, Saul, Rebeca e da menina Sara, de dez anos, na casa de quem ficara abrigado após a morte repentina dos pais num acidente de carro em sua terra natal no Sul de Minas. Samuel viajaria em seguida para o Norte do Paraná em companhia do tio paterno Josué, viúvo, sem filhos, empresário nos ramos de marcenaria e materiais de construção. O tio assumira a guarda de Samuel.
     O tempo passou; Samuel formou-se em administração de empresas ao mesmo tempo em que gerenciava as empresas do tio, assumindo todo seu patrimônio após seu falecimento.
     Com experiência adquirida na convivência do tio, Samuel tornou-se um empresário competente, sólido, dedicado e filantropo, doando um terreno para a construção do aeroporto da cidade, além de ser o provedor do hospital. A essa altura dos fatos, Samuel já estava casado e pai de um casal de filhos: ele médico, ela engenheira metalúrgica.
     Novamente o tempo correu. Samuel está viúvo, aposentado e bem de vida aos 60 anos de idade. Benquisto e admirado em toda a cidade. Um vereador apresentou projeto aprovado por unanimidade a fim de homenageá-lo com o título de cidadão honorário.
     Os filhos notaram que Samuel não se entusiasmou com a idéia, mas juntamente com eles, foi receber a homenagem na Câmara Municipal iluminada e repleta de convidados para a solenidade. Após receber o diploma e ser aplaudido de pé, Samuel emocionou-se, limitando-se com a voz embargada, a um "muito obrigado". Após os cumprimentos, retirou-se com seus filhos.
     Em casa, foi dormir. Ao se deitar, murmurou: "eles não se esqueceram de que eu não nasci aqui; e nem me lembrava mais disso". De manhã, durante o café em família, avisou: vou viajar. E os filhos, surpresos: para onde, pai?
     - Vou aonde eu deveria ter ido antes e diversas vezes: vou à minha terra natal.
     Chegando lá, Samuel hospedou-se no modesto e aconchegante hotel. Ao se identificar, não se surpreendeu por não ser reconhecido. Procurou pessoas mais antigas e localizou alguns de seus colegas de escola. Bem recebido, se entrosou e perguntou pelos pais de Sara e por ela. Os pais dela foram embora depois que Sara se casou e separou-se do marido, que casou com outra. Sara - professora aposentada - estava lá, morando na mesma casa dos pais. Samuel foi ao seu encontro, namoraram e se casaram, residindo em sua terra natal.
     A lua de mel, em Jerusalém. Sara perguntou por que num lugar tão longe e Samuel respondeu:
     Lá é que vamos saber por que meu pai se chamava Enoque, minha mãe, Berta, meu tio, Josué, eu, Samuel, seus pais, Saul e Rebeca e você, Sara...
     Na rua passava um carro de som com a voz de Raul Seixas: "...eu nasci... há dez mil anos..."


Um "conto" nosso, que não é do meu feitio. Em todo caso... um dia a gente acaba sendo mentiroso. Porque os jornalistas é que são verdadeiros. Todo escritor é mentiroso (ficcionista para ser educado, etc). Acontece que muitos jornalistas que defendem essa premissa, acabam pagando com a língua...

M.R.Gomide – jornalista – 39/DRT-MG-16.132/70

 
  
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Comentários:

Maria Virgínia - Caratinga - 16/02/2013
Amor, saudade. Reminiscência... Muito bonito esse conto.

Asséde Paiva - Volta Redonda - RJ - 22/01/2013
O bom no escritor é que pode mentir sem ruborizar. Eu nem sei se meus textos são verdade ou ficção, ou os dois...

James Fernando - Barcelona - 21/01/2013
Adorei. Muito bacana!

Asséde Paiva - Volta Redonda - RJ - 19/01/2013
Que maravilha!!!!

Alessandra Patrícia (Benficanet) - 18/01/2013
Gostei muito de ler "Cidadão honorário"... e que lindo o final deste conto! Tendo vivido tudo que viveu, ao longo de 60 anos, Samuel volta ao lugar de onde veio, para se sentir totalmente realizado e claro, em felicidade plena! Ficção ou não, é uma estória emocionante.
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